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Pedaços de Suzane

Por Luís Nassif
20/4/2006
Ainda não sei quem é Suzane Richtofen. A jovem fria, que planejou o assassinato dos pais, com a cumplicidade dos irmãos Cravinho, namorado e cunhado, para ficar com a herança? A jovem oprimida pela relação familiar que viu no assassinato a única maneira de encontrar a liberdade? Ou uma personalidade psicótica que aflorou da noite para o dia, como costumam aflorar as loucuras imprevistas? Alguns pedaços de Suzane e dos irmãos Cravinho vão emergindo daqui e dali, através de e-mails recebidos.
Delegado de Polícia, Professor de Direito Penal e especialista em criminologia, Alberto Ramirez concorda que “o crime em questão não está sendo observado sob a ótica criminológica, mas tão somente sob o aspecto policialesco”. É idêntico o desabafo do policial Marcelo Milani, que participou da fase inicial das investigações. “Não existe nenhum exame psicológico realizado, porque infelizmente tanto a Justiça como lamentavelmente no Ministério Público o caso virou uma verdadeira fogueira de vaidades. Como Suzane é ré confessa, não se vai discutir a culpa mas a punição. Portanto, para mim, seria fundamental saber se Suzane deve ser presa ou tratada”.
Milani testemunhou o comportamento dos irmãos Cravinho na reconstituição do crime. Os dois irmãos tiveram um ataque histérico. “Daniel, o namorado, passou mal e teve que ser atendido, tamanha a culpa que neles se instalou”.
Já o promotor de justiça Roberto Tardelli, também em e-mail, deu a seguinte explicação para seu pedido de prisão preventiva dos irmãos Cravinho, após a entrevista à rádio Jovem Pan: “Partindo de dois autores de assassinatos brutais (...) ao anunciá-lo a milhões de ouvintes, mais do que dizer, um e outro anunciaram seus serviços”.
A essa curiosa visão do “matador delivery”, os-matadores-com-endereço-conhecido-que-fazem-marketing-de-seus-serviços, se soma a do neurologista Célio Levyman, ex-conselheiro do Conselho Regional de Medicina (CRM), que considera que a maioria dos laudos psiquiátricos é uma forma de segregação social, visando encontrar desculpas para os crimes dos ricos.
Afinal, nessa torrente de emoções, de palpites, de indagações, quem é Suzane?
José Fernando conheceu a família Von Richtofen e conheceu Suzane desde criança. Seus pais eram vizinhos dos Von Richtofen e foram padrinhos de batismo de Suzane. José Fernando tratava Mandred de tio, Marisa de tia, praticamente nasceu em sua casa, e nunca observou um desvio sequer de comportamento, nem deles, nem de Suzane. Não tinham a afetividade derramada de uma família árabe ou italiana, mas eram pais atenciosos, que nunca bateram ou destrataram os filhos.
Em nenhum momento Suzane demonstrou qualquer desvio de comportamento. Discutia com os pais como qualquer adolescente. Nunca brigou com o irmão, jamais manifestou agressividade fora dos limites de uma adolescente. Tinha uma relação normal com os padrinhos, ligando nos aniversários e, junto com a família, passando com eles todas as datas comemorativas.
Depois do crime, José Fernando levou uma amiga psiquiatra para visitar Suzane, presa. Em nenhum momento Suzaner aparentou remorso. Na saída, a amiga foi taxativa: a menina padecia de psicopatia, era doente.
Também conviveu também com os irmãos Cravinhos. Foram influenciados ou influenciaram? Nunca vai se ter a resposta certa. Havia uma química louca, que levou uma moça a planejar a morte dos pais, e dois rapazes a assassiná-los de modo brutal.
Acompanhou o drama de Andrés, o único irmão de Suzane. Depois do homicídio ele estava completamente abalado. Apenas um mês depois, quando morreu um bichinho de estimação é que houve a catarse, que lhe permitiu abrir as comportas da emoção e chorar tudo o que segurou antes.
No começo, foi divulgado um bilhete imputado a ele, que dizia “Suzane, eu te perdôo, você é minha amiga”. Ele não escreveu o bilhete, e não ficou solidário com a irmã. Ficou apenas em desespero total, aos 16 anos, órfão de pai e mãe, assassinados pela irmã. Assim que a ficha caiu, não se viu em nenhum momento o sentimento de perdão.
Os Richtofen tinham um bom padrão de vida, mas construído ano a ano, conta José Fernando. Marisa era psiquiatra bastante bem sucedida. Fluente em alemão, sempre atendia a estrangeiros, recebendo em dólar. E Manfred apenas muito recentemente tinha entrado na Dersa, para que se fizesse qualquer ilação entre o emprego e seu padrão de vida.
O advogado que abrigou Suzane em sua casa não era amigo de Manfred, apenas colega de trabalho, e com tão pouca intimidade que seu nome jamais havia sido comentado nas rodadas com os vizinhos.
Leio os e-mails, tento imaginar a vida normal dos Von Richtofen, uma semana antes do crime. Penso nas minhas menininhas, as pequenas e as adultas. E não consigo evitar uma profunda pena de Suzane e dos irmãos Cravinho, do casal Richtofen e de seu caçula Andrés. E do seu Cravinho, pai dos rapazes, que, no seu ofício de escrivão da 3ª Vara de Família da Capital, testemunhou tantos lares assombrados por fantasmas que jamais serão revelados, a não ser no instante supremo da tragédia.
No decorrer da semana, os jornais noticiaram a história da menina de 12 anos, filha de um pedreiro, que chorou desesperada quando assistiu a prisão de Suzane. No dia seguinte tentou envenenar o pai.

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